sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Da beleza ao amor

Afrodite atravessou mares, serras e cerrados, levando consigo a flauta, a cotovia e o sabiá a despertar emoções lascivas, canto e encanto tirado dos sonhos rompidos de saudades vãs, desencontro dos que jamais se encontraram.

Verbos rasgados que se desnudam em rival hostil
pelo ódio de prantos recolhidos no olhar perdido com olhos ainda úmidos e submetidos ao degredo entregues na nostalgia da solidão.

A cotovia cantou o mais belo do seu doce canto
e foi posar na flauta que tocava suave e cimeira, quando o sabiá abriu glamouroso contracanto, mas curvado à beleza de Afrodite, silenciou.

A nostalgia se amparava na solidão deserdada
de desejos sentidos, entregues ao rito do cadafalso à silhueta do corpo sob anseios relutantes.

Beleza por si só não basta ao degredo do homem, que não passa de verbo sem sentido a perder-se em recordações de antigos e valorosos anseios.

Vem o doutor, senhor que semeia a flor do amor no degredo dos que já se perderam ou souberam, quiçá as delícias de um afago real e verdadeiro.

Fundiram-se a beleza e o amor!
De Afrodite, a bela e sensual, meiga e sedutora, restaram anseios, sentidos vazios sem o Cupido

Séqüito do eu só

Surjo de uma imensidão vazia ao silêncio enlutado,
desperto dos meus sonhos rompidos e isolados,
perdidos no recôndito do meu eu em desencontros,
de uma saudade que se espraia no amanhã da aurora.

O agora vazio se contrai ao frio do ocaso em relento em noites vilãs de ferina recordação de um anoitecer, levadas ao êxtase de emoção, em devaneio terminal,
rompido pelo descaso cingido ao silêncio enlutado.

No furor do amargo descaso, meu peito ainda palpita em ritmo impreciso e descompassado.

Verbo desnudo e sem eco, se perde na propagação de si a si mesmo, no fundo vazio do silêncio sem amplitude onde arde o sereno no negrume.

Pés descalços em descaminhos se arrojam a marchar
pelo vaivém dos desencontros a ter quem encontrar
em momentos perdidos de anseios e desencontros
ejetados de outros sonhos, quimeras que se esfumaçam deixando os despojos de um séqüito do eu só.

Sombras que assombram

Veio a noite, chegou a madrugada,
sombras que assombram também chegaram,
de onde, não o sei;
nem porque vieram;
não sei se ficaram...

Talvez sejam fantasmas os pensamentos
da irrealidade que busco
no que espera em seus versos,
ainda presentes em tempos de outrora,
fazem-se nas linhas os traçadas de agora.

Tremo, em seu tremor de tanta espera.

Ruge a fera que se nos devora os sentidos,
na caverna oculta de sombras
que passaram, segredos, sussurros e vozes
quase emudecidas, em cujo o verbo da carne
se abre em feridas, deixando cicatrizes,
cujas as marcas evidentes,
jamais permitem negar
o que se vai n'alma.

Num misto de medo,
sofreguidão, quem o sabe?
ou até mesmo paixão,
luto e vejo-me vencido
pela fera ferida
na convergência do ocaso.

Não posso negar
que o seu tremor me faz tremer,
a sua espera me leva a esperar
e sempre a viajar,
pois estou no horizonte do pensamento,
nas brumas do recôndito da caverna
disposto ao julgamento,
mas não, não posso negar
a flama que se inflama
quando deito os meus olhos nos olhos seus.

Desejo reprimido

Vida demais crua, quanto nua à realidade.

Perdido em palavras. . .
Sonhos em forma de frases e pensamentos.
Dou forma ao irreal;
A vida a que morreu.

Estou sendo arrastado pela vida;
procuro me agarrar as suas margens,
tentando manter a cabeça à tona.

Muitas vezes acho que vou sucumbir. . .
Vou de encontro às letras para fugir
de uma realidade tão triste, quanto real.
Preso à fantasia, em devaneio;
no sonho e na certeza
de que após a tempestade,
o sol sempre brilhará!

Ainda bem que tenho com quem contar,
nem que seja para me ver,
me sentir e saber
entender o que me vai na alma! Você!

Pois se temos olhos de ver,
ouvidos de ouvir... Podemos dizer:
Não estou tão só como penso estar!

A certeza e o temor, de aceitar,
de saber que se deseja o proibido.

Sensação de calor;
Sexualidade atiçada;
boca seca e o corpo trêmulo;
olhos úmidos, mãos ávidas.

Desejo a eclodir à espera voraz dos sentidos.
Do sexo latente...

E a constatação que diante do instinto,
somos quase impotentes... Fracos.

Busco. . .
Fujo. . .
quero ser encontrado!
abraçado, beijado. . . Acarinhado.

Ouvir palavras doces.
Sentir o hálito quente, o abraço febril,
a boca na procura de prazeres escondidos:
Tremor excitante, umidade receptiva.

Ao final, o clímax!
Corpos, entrelaçados, felizes e cansados.

Eu, você...
O nosso encontro carnal e espiritual,
num interagir de desejo contido e angustiante.

Retorno ao rochedo

Verdes mares, retorno ao rochedo
que se emudeceu de ouvir o canto
do encanto das sereias de além mar;
a ouvir o meu canto de nostalgia
trêmulo e sofrido pelo pecado de amar.

Vejo que pelo brilho de seu olhar
o rochedo ficou cego;
não se deu conta que lançaram de seu topo,
duas contas que jazem depositadas
no fundo do mar.

O pranto ácido de meus olhos vermelhos,
levado pelas ondas,
à sepiolita foi-se misturar
em espumas brancas à beira-mar.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A roda da vida

O Mundo roda. . . Roda sem parar;
mas se a cabeça roda, dá vontade de chorar.

Roda menino, roda pião,
bambeia, bambeia no chão, sacuda a poeira;
chore, levante a cabeça e saia do chão.

Rodas que rolam pela vida, que vêm e se vão;
Rodas que se arrastam já cansadas de rolar;
Rodas soltas e sem freio: acabam no paredão;
Rodas presas. . . Não chegam a nenhum lugar.

Rodas velozes ou de vagar;
polidas ou encardidas,
são as mesmas rodas que levam. . .
O alimento à mesa;
o louco ao manicômio;
os noivos ao altar.

Rodas, na natureza cíclica dos ritmos universais,
a exemplo do dia que se alterna com a noite,
dos movimentos planetários e das fases da lua.

Também leva o caudilho triunfante em seu carro,
falso protetor!
Locupleta-se na guerra e na morte;
ávido, desperto por tentações materiais.

O mesmo que antes subira ao topo,
ovacionado, jaz vencido pelos instintos,
tragado pelas emoções, vai à queda,
então humilde, ora roto e despojado.

Espelhos da alma

Olhos negros, castanhos, verdes ou azuis;
Grandes, pequenos ou oblíquos: o que importa,
se imperfeitos de estética e até mesmo deficientes?

Senão os olhos postos nos olhos meus,
a ver e enxergar a grandeza do ser que afaga
com as plumas do coração
ou com mãos crispadas de espinhos,
carregadas de pedras.

Não se enganem com o falso brilho das coisas,
do vendilhão, do hipócrita ou do fariseu. . .
Presentes estarão à Ceia.
Verborrágico papagaio,
“decoreba” sustentado pelo cajado,
não tardará a arremessá-los contra a suas ovelhas famintas
que venham a disputar o pasto comum.

Olhos famintos e sedentos do que comer e beber,
famintos e sedentos de Verdade e de Justiça!
Simples. . . Humildes e pacíficos;
submissos ou passivos;
arrogantes ou prepotentes.

Olhos que riem de amor. . . E de felicidade;
olhos que irradiam Beleza... Saúde, Força e Prosperidade;
olhos que choram sem lágrimas;
olhos que enganam a si, pensando enganar a outrem;
olhos de traição que choram lágrimas. . . De crocodilo;
olhos que sofrem na derrota. . . Ou mesmo na vitória;
olhos que buscam o que ninguém ousa ou não quer buscar;
olhos que vêem o que poucos conseguem enxergar.

Aprenda a ver na janela da alma
e ausculta o interior de quem lhes fala,
pois os olhos são verdadeiros espelhos
que refletem a mais íntima trama de um ego dissimulado,
deixando a descoberto o caráter do vil passarinheiro.

Despertar

Venham peregrinos guerreiros!

Ouvir ao frescor do silêncio. . .
Somente a brisa sopra
entre o vale e a montanha,
indo repousar no marulhar
e perene murmúrio das ondas
que se chocam e se precipitam
num vaivém constante
de espumas em agito,
a desfazer mistérios e encantos. . .
Quiçá, somente desencantos.

Fulgor de Milagres,
vãs filosofias em efervescência
que se perdem pelo espaço,
por entre os cintilantes grãos
da fina areia a testemunhar.

Vigor do insólito:
De dia à luz do Sol;
de noite à luz das estrelas;
quiçá das tochas e do luar,
ante a ubiqüidade vigilante
do Poder Onipresente,
sem entregar-se ao sono,
ou deixar-se, senão,
ao gozo de regalo do cotidiano.

Venham peregrinos guerreiros!

Despertar do sentido
que se nos aflora ao anteceder,
a tragédia já consumada
e derrama o bálsamo ungido
de amor e perdão.

Venham ao lirismo do sabiá
em meio a outras espécies de seres;
contemplem cada momento de per si,
na alquimia do processo.

Recolham e cultivem a pedra de toque
na transmutação da vida,
ao amassar a amálgama,
na união de corações
voltados aos ideais da Paz Interior.

Venham bravos guerreiros,
ao despertar dos sentidos;
pois vos saúdo por três vezes três
ao arrojar-se à muralha,
na expansão dos limites da liberdade

Arbítrio do Amor Universal

Qualquer hora;
nalgum outro dia. . .
Onde o tempo não é o nosso tempo,
senão, espaços povoados de lampejos
à busca de todas as mesmas emoções;
receitas de a mesma fonte cristalina.

Vibrações de entes contritos à perfeição,
juntos, quem o sabe?
Haveremos de estar em sinergia,
porém desprendidos de desejo fútil;
livres, sem ambição. . . Despojados.

Expressão de verdade, essência real;
qualidade inerente á natureza humana
em dedicação fraternal.

Amor desperto que se denota
na candura inocente, sem nódoas.

Estado virginal,
sem mácula,
onde se cristaliza a prática do amor
na fusão da amálgama de energia
sem polarização, levada ao assento,
etéreo cósmico do amor universal.

Hoje, quando ainda todos somos carne
num mundo de atos, fatos e lamentos;
umedecidos pelo pranto dos ímpios.

Busco vivenciar uma realidade pura,
isento de conceito ou simples idéia,
semeando em liberdade, meu plantio
à espera de a colheita obrigatória.
Busca do que está junto, e por nós

Busco o oculto,
distante dos olhos de ver.

Busco o som,
distante dos ouvidos de ouvir.

Busco o sentido em que há o sentimento,
Busco o sentimento que pode ser sentido.

Nada mais. . .
simplesmente, busco. . .

Eis o sentido da Vida
em busca de uma Verdade:

Se oculta certo a quem procura,
e, ainda, se deixa enganar
pelo falso brilho das coisas,
ou na superfície opaca,
é-lhe difícil entender o óbvio;
ver com olhos de ver; meus olhos;
inaudível aos meus ouvidos.