segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O poeta e a rosa
À ZiCartola


Certo dia
o poeta em devaneio,
apaixonado foi buscar
inspiração tirada à lua;
em sua rosa há de encontrar.

Levando emoção
foi ao topo da colina;
em meio às trocas
e juras de amor,
surgira uma obra-prima.

Violas e bandolins enluarados;
banjos e cuícas no terreiro,
tocados em puro sentimento,
às cordas do violão seresteiro.

Vendo-se debruçado
sobre o muro,
Ouviu-se o cavaco em prantos,
todo envolvido na harmonia;
notas de soluços sacrossantos.

Rosa negra. . .
Amo-te! Amo-te!
Dama da Estação-Primeira
dona do seu coração

Zica-da-Mangueira
tu és a inspiração.

A Verde-e-Rosa: emoção;
dama Zica–Rosa-Negra
à vida de Cartola,
dupla satisfação.

Hoje o poeta morreu. . .
A rosa murchou;
o perfume da mulher atravessou.

Para a eternidade, esse amor ficou.
Com a melodia o poeta nos encantou.
Dama, com sua alegria,
o carnaval emplacou!

Devaneios da infância

Era manhã de primavera quando despertei
aos primeiros raios de sol que atravessavam
a janela do meu quarto.

O perfume das flores espargia pelo ar,
enquanto o espaço ao meu redor, tomado,
por um festival multicolorido de espécies,
atraíam borboletas, abelhas e outros insetos,
a saudar a manhã num bailado invulgar.

Chamavam a minha atenção e curiosidade,
os pequeninos colibris ou beija-flores,
cujas asas batiam em tão alta freqüência,
ora em vôo veloz, ora parados no espaço,
qual helicópteros em missão de resgate,
buscavam o alimento no néctar das flores
e nos minúsculos insetos.

A plumagem delicada era de cor metálica
destacando-se o verde-dourado e o amarelo:
distinguia-se, a estria pardo-amarelada,
acima e por trás dos olhos, até ao pescoço;
mesclando-se a cor preta atrás dos olhos;
na garganta e no abdome também negros,
orlados de branco.

Noutros destacavam-se a cauda vermelha
num brilho acentuado e o dorso verde-escuro;
a garganta cor de cobre com tons dourados;
e abdome escuro, reluzindo em tom metálico.

Meus pensamentos voaram presos,
nas asas de um colibri.

O colibri parecia mágico e me fez regressar
a datas remotas da infância que se perdiam
nas brumas do tempo, fazendo-me chegar:

A casa em belo pomar do tempo dos barões,
era limítrofe a outro imenso terreno vazio,
que se estendia aos limites do cemitério.

Um bosque com uma infinidade de árvores,
mantinha pássaros, macacos e outros seres,
levava-nos a instalar um acampamento,
onde se iniciavam e terminavam os dias.

Poesia

Poesia é a mansidão dos lagos,
a terra em que nascemos,
a desgraça de alguns;
a ventura de outros. Tudo é poesia. . .

Poesia é a chuva que se precipita
para fertilizar a terra ainda seca,
indo-se juntar aos córregos,
rios e cachoeiras, em busca do mar,
ou voltando-se logo a evaporar
em camadas de densas gotículas;
precipitam e se tornam à noite
em gotas de orvalho, acalmando;
trazendo a paz e consolando
filhos de horas mortas.

Na madrugada, a depositar-se nas pétalas,
quiçá, primeiras da flor singela,
que desabrocha a espargir suave a fragrância,
em cujo frescor se mistura ao perfume do campo
a atrair pirilampos e joaninhas;
abelhas e beija-flor, entre outras vidas,
a declamar poesia.

Poesia é a mesa do bar
onde cada um tem a história
de um sonho não realizado.

Poesia. . . É a sombra do passado
que prenunciou ventura
e nos dá no presente
nada mais que amargura.

É um mundo de incertezas. . .
De castelos construídos,
aos pés de outros desmoronados.
Sonata de quem ama

Gostaria de compor o mais belo poema
inserido nos acordes do hino celestial,
cujas notas aos anjos entregaria.

A sonata da vida em cuja alma escrevi,
gravei com o sangue que pulsa célere,
em palpitar ofegante aos acordes
do coração, em movimento rítmico
e compassado de dois tempos.

Em sístole:
quando a alma geme querendo-lhe amar
em toda a essência no fulgor da chama
que arde e clama, não só desejo simples,
vulgar ou animal, também a seiva
que se manifesta e nutre o gérmen
do plasma, elevando o espírito
sobre a carne.

Em diástole:
Transmutação de uma simbiose fecunda,
associação múltipla de fatores sinérgicos
entregues ao instinto de busca ao prazer,
quiçá o limite tênue de vida e de morte.

Energia motriz, agitação;
instinto líbido, calor pulsante.
Aquece e dilata os corpos,
unindo-os ad eterno, à fusão mística,
da amálgama gerada e levados ao criador
sob a benção de o maior dos poetas
que a vida pintou e arquitetou na certeza
dos frutos do nosso amor.

Eleva a conduta ativa e criadora do ser,
em dedilhar harmônico ou desordenado,
mas tocado aos acordes de singela sonata,
impelida aos anseios de marcação surda
do contrabaixo em notas graves,
à busca ofegante que palpita
aos acordes agudos
e ressoa às esferas angelicais.
Umas palavras Palavras ditas. Olhares que tudo se nos diziam, tremores compartilhados, angústias sentidas! A lua como testemunha de momentos únicos; febris e intensos! Não entendi eu sei, o fim. Talvez não compreendas o não... Mas não precisas ser indiferente, e nem falar comigo tão distante... Não precisas ter o frio nas palavras pois mesmo sem proferi-las ou escrevê-las sinto que vem de ti o gélido do malquerer! Entenderás por certo, o melhor a ser feito, mesmo que me custe ou me faça sangrar; que me corroa e me tire o ar! O destino nos apronta peças, dá-nos prazeres... E também o sofrer! A razão prevalece, mesmo sem o querer! Sinto em tuas palavras... Na tua voz o tom... Da amargura, da raiva... Razão de minha tristeza, então! Entende, compreende e não me queira mal. Pois meus olhos estão secos... Minha alma inundada de lágrimas sofridas... De lágrimas revoltadas!