quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

No êxtase da exaltação

Cambaleiam trôpegos pelo exíguo espaço seguro, cadavéricos estereótipos de extenuante vigília, assombrados por funestos vendavais titânicos,
que espancam a alma, qual verdugo a açoitá-los.

Outrora árvores frondosas, hoje o cerne invadido expõe o ser debilitado, em processo de desgaste.

Incautos à disposição de metas ministeriais, mascaradas de sacrossanto ofício, em captação delegada aos prepostos do banco de lamentos.

Ilusionistas que materializam o éden ao faminto,
na excitação seca de angústia do espírito incapaz,
afogam e levam ao êxtase da exaltação coletiva;
todos ao delírio do arrebatamento.

O pranto dos aflitos reflete a dor do presente,
em busca da divindade, pregações e pregões sustentados pela comoção de dor sem amparo,
dos pobres, deserdados e déficit social.

Afogado, fundo do poço, desvairada agitação;
os ingredientes de inconsciência da realidade
em distúrbio de julgamento.

Farfalhadas ribamar

Ouço as ondas enfurecidas que se arrojam ao rochedo
em ritmo de ameaça ou arrogância, contra a muralha
que se-lhe impõe descanso à fadiga que acena o amanhã.

A brisa sopra suave e serena massageando as águas verdes
que se espraiam em espumas nas areias alvas e úmidas
de olhos tristes e marejados, em verdadeiro dueto
que abafa o soluçar dos deuses do amor, ora em gemidos
profundos e sonoros, ora em harmoniosa canção.

As águas vão buscar as nuvens que passeavam a beira-mar
e se projetam num estrondo de milhares de decibéis surdos
levando-nos a tremer, sob o açoite do funesto que zumbia
nas frestas da janela de nossa casa na madrugada escura,
e fazia circular os fantasmas da sombra, à luz de lampião.

A cada espocar do verde mar, as mãos nuas se apertavam
em promessas, em delirante comoção contrita de recursos,
legados à exclusão dos ribamares, qual mariscos sofredores,
reféns da briga entre o mar e o rochedo.

Os ânimos serenaram, mas o vento ainda soprava em terra,
por entre as frestas e o frio se fazia sentir ao relaxamento
dos músculos, antes contraídos pelo pavor.

As folhagem se misturavam à areia e aos restos calcários
sob a ação do vento que tornava a farfalhada aterrorizante,
levando-nos à angústia e a soluçar à passagem funérea.

Como falar de amor?

Gostaria de escrever sobre amor.

O amor à natureza:
Suas matas, rios, mares, lagoas e cachoeiras.

O amor ao vegetal que embeleza e cura;
O amor ao irracional que caminha sôfrego; e corre estático ao encontro do absoluto; embeleza se feio, nada no seco e voa no chão.

Levado ao holocausto, entrega-se à dor,
em sacrifício, alimentando predadores vorazes
que matam, cumprindo o papel de personagem
articulada; projetada pelo arquiteto e criador
como ponto de equilíbrio do Universo.

Da criação veio o terrível racional homem.

Fruto dual;
geração fatídica de corpo e espírito
que encerra um estado complexo
de virtudes e fraquezas.

Devo apressar-me,
quero escrever sobre amor,
porém nada vejo,
senão uma total devastação.

Tal qual o deficiente visual,
que enxerga à visão de os olhos de outrora,
revendo todos os filmes gravados
e passados nas sombras da caverna.

Assim, somos os que viam e contemplavam
a passarada que nascia;
adormecia e despertava
nas frondes altas de nossas matas
e até mesmo no pomar de nossos quintais.

As orquídeas, bromélias, folhagens e parasitas;
as quaresmeiras, o ipê e manacás
em festival de raízes e folhas;
ramos de flores e folhagens,
de essências florais e diversidade em matizes.

Os pirilampos voavam de lanterninhas acesas
a iluminar os campos, quintas e quintais
chamando a atenção de eventuais passageiros
e demais entes, protagonistas da noite.

Aos primeiros raios da manhã,
as crisálidas despertavam da metamorfose
e batiam asas, indo-se juntar
à diversidade de borboletas
a mesclar o espaço, qual adereços,
compondo acessórios cênicos
em desfiles no sambódromo.

Jazem também os rios, lagoas e regatos. . .

Praticaram o extermínio de tudo;
dos sapos e das rãs que lá coaxavam;
das libélulas faceiras com asas membranosas,
transparentes, luzidias, brilhantes e coloridas
que voavam, circulavam, pousavam e voavam
parecendo reger a valsa do imperador;
dos peixinhos barrigudinhos que lá povoavam;
do camarão Pitu, com as pinças assustadoras,
semelhantes ao caranguejo.

Acabaram-se os sítios do pica-pau-amarelo;
ninguém foi ao enterro da vespa:
nem o cururu, nem o boitatá;
quebraram as muletas do besouro. . .

Crianças e adolescentes não brincam;
não cantam a cantiga do pião que roda, roda;
bambeia no chão, e outras brincadeiras.

Substituíram-nas pela droga, pistolas e fuzis;
cola de sapato, sexo e maternidade prematura.

Acordei com o coração de poeta e romântico,
querendo falar de amor, mas torno frustrado:

Nada encontrei.

Somos

Poetas, contistas, romancistas. . . Escritores;
Pintores, escultores. . . Artistas plásticos;
todos em busca de uma beleza intangível,
mas qual? Nada mais que o reflexo do Sol.

O sádico que se nos leva ao sofrimento
de sensações calcadas na vivência passada,
faz chorar numa interação de sentimento
ou momento, em que outrem esteja vivendo.

O masoquista que sofre,
adoece e morre
vivenciando a dor e o sofrimento
do passado, ou do presente,
de atos e fatos cruéis,
embora restritos a uma ou mais pessoas,
sem qualquer vínculo ou laços afetivos.

O sadomasoquista transita em liberdade,
nos umbrais do tragicômico,
não o sabemos, se sofrendo
ou fazendo sofrer,
não o sabe também,
pois se gratifica viajar pelo funesto,
colhendo aspectos hilários
dos incidentes cômicos,
havidos no seio de a mais triunfante
e orgulhosa de todas as artes: a Tragédia
que se estabelece radiosa
no centro do campo inimigo.

Somos nascidos para criar,
para expressar ou para transmitir sensação
e sentimentos verdadeiros,
puro reflexo de nossas emoções;
e de entusiasmos;
tudo o que nos vai n’alma:

Seja o amor ou vingança, seja o ódio;
seja o pesar, a tristeza ou seja o desgosto;
seja o dever ou sejam as próprias fraquezas;
seja a moral;
seja o intelectual.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Carta aberta a uma amiga!



Bethania quando você disse que se um dia desfilasse pela Portela e fosse questionada sobre os seu sentimentos, não saberia transpor para papel.
Bom permita-me discordar, saberia sim, você escreve de forma prosaica, cheia de sentimentos, escreve com o coração e a alma unidos! Se isso não é saber se exprimir, então não sei.
É claro que sabe fazê-lo, mas ao seu modo, o que é importante demais, não se atenha a dogmas, escolas ... Faça da forma que quiser livre de academicismo, sem preocupar-se com a métrica, exponha suas idéias, seus pontos de vista, sua estória e sua história
Sim História, para falar sobre você, de onde vem, para onde vai para nos engrandecer contigo.
E suas estórias essas de seus sonhos, seus pensamentos, sua vivência transformada em lirismo...
Deixe-se levar, uma pena e uma folha de papel, eis o mistério do mundo, pelo menos do meu mundinho! Rsrsrs
Olhe a sua volta, As Gerais são estimulantes, sinta o frio, o Sol, A chuva, as montanhas, as matas...Sinta você mesma.

"Uai, escrever é um trem danado de bão sô!"

Beijos querida amiga mineirinha

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A música cigana

Vida nômade por distantes caminhos do mundo,
à busca de sobrevivência digna do povo cigano,
em suas vestes coloridas, carregando cântaros
de vinho e água.

Cai a noite. . .
A fogueira e o céu por testemunha, mais um dia
de dedicação a levar o sustento da família.

Ouve-se no acampamento, o barulho surdo ou estalado, que se confunde na harmonia com instrumentos diversos:
Na percussão as castanholas, os címbalos e os pandeiros sempre assessorados pelas palmas e as batidas dos pés,
porém, ouvem-se violinos, guitarras e violões,
enquanto jovens e idosos interagem com a voz.

O corpo, em movimentos rítmicos do flamenco,
da rumba e da seguidilla manchega, muito viva;
bolera, moderada; gitana, lenta e sentimental.

Já se arriscam a mesclar os sons de nossa terra,
num cenário de encanto e momentos mágicos,
cultivados no costume livre de compromissos,
senão com a tradição que cultuam em liberdade
quanto às vidas nômades repletas de emoção
e beleza do flamenco. . . O camponês errante.

Esses nômades acossados ao longo de a existência
sobreviveram ao Tribunal do Santo Ofício;
inquisição espanhola, e ao nazismo de Hitler.
Ledo engano pensar tudo são flores aos ciganos,
que no recesso do acampamento, sofrem entre si,
e extravasam a dificuldade do viver.

Uma noite cigana

Filhos da estrada, o encontramos a caminho. Surgiram nas brumas do alvorecer no campo
ao primo canto da cotovia caminheira.

Atravessaram cidades, arrabaldes e cercanias,
fortalecidos pelo rígido código de segregação,
indo conhecer outros povos e novas gentes,
perderam-se em meio às brumas do anoitecer,
ao canto sábio da coruja, ao deixar o ninho.

Deixaram-se adormecer para novo despertar,
sob as frondes verdes e floridas de novo campo
onde não mais cantava a cotovia,
deu lugar ao canto do sabiá e do bem-te-vi.

Mesclaram-se a língua e os costumes;
as lendas, a música e sua dança.

Arriba! gitano. . .
Arriba! cigano. . .
Arriba!
O céu é mais azul, a água fresca e abundante.

Desfizeram-se carroças, carroções e gemidos,
trazidos pela estrada empoeirada. . .
Estenderam a lona do acampamento,
surgindo ampla tenda e barracas familiares.

Veio a noite fria, trazendo os astros e seus guias,
levando-os a reconhecer em si o seu tipo astral,
em reflexão pessoal, lançando-se à nova busca
da árvore de uma vida repleta de amor.
A fogueira foi acesa, tornando o breu da noite
em ambiente claro e hospitaleiro ao rigor frio
da primeira chuva fina do inverno.

Crianças foram atraídas ao redor,
indo-se juntar mulheres e varões,
invocando na transmutação de vidas passadas,
a cura dos males físicos e espirituais.

Surgiu um tênue vapor atmosférico
ao silêncio noturno do relento,
precipitando-se o sereno da madrugada.

As primeiras gotas de orvalho jaziam sob as folhas
e as pétalas que se cobriam da cor de prata,
tornando-se argênteas, parecendo-se impregnadas pelo fluido de estrelas que desciam e vagavam.

O violino, a viola e o violão;
o pandeiro e o acordeão atravessavam a noite,
rasgando e rompendo a densa névoa a cair,
tornando branco o verde da vegetação.

O som do gemido surdo das carroças silenciou,
em face de o gemido agudo do violino,
soando as notas tristes e distantes do Mar negro.

Silêncio!
Todos sob a magia hindi e czardas,
de cujo legado húngaro trouxe a música
e a dança que evolui, sob a introdução apática,
movimentos de caráter melancólico e patético,
acelerando o ritmo a um estado selvagem.

Sulamita, morena linda, faceira e indiferente
aos olhares, levava o cântaro de vinho e água
que distribuía no ágape, ora servido.

Em notas plangentes, o violino voltou a gemer,
como se tomado de um sentimento profundo
que dominou a todos, entoando um canto triste
que foi buscar na terra distante da Andaluzia.

A melancolia do canto jondo já fazia chorar,
quando Wladimir formou par com a Sulamita,
aproximando-se das labaredas, a saudar o fogo
que se desprendia da fogueira que ardia,
aquecendo o vasto terreiro, com energia alegre
que já se ouvia do canto flamenco.

A energia alegre da dança, dissipou a tristeza;
outros pares se fizeram em movimentos típicos
dos braços e de tronco, permitindo a beleza,
e a sensualidade morena da cigana aflorar,
em sua cor trigueira do mouro.