terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Uma noite cigana

Filhos da estrada, o encontramos a caminho. Surgiram nas brumas do alvorecer no campo
ao primo canto da cotovia caminheira.

Atravessaram cidades, arrabaldes e cercanias,
fortalecidos pelo rígido código de segregação,
indo conhecer outros povos e novas gentes,
perderam-se em meio às brumas do anoitecer,
ao canto sábio da coruja, ao deixar o ninho.

Deixaram-se adormecer para novo despertar,
sob as frondes verdes e floridas de novo campo
onde não mais cantava a cotovia,
deu lugar ao canto do sabiá e do bem-te-vi.

Mesclaram-se a língua e os costumes;
as lendas, a música e sua dança.

Arriba! gitano. . .
Arriba! cigano. . .
Arriba!
O céu é mais azul, a água fresca e abundante.

Desfizeram-se carroças, carroções e gemidos,
trazidos pela estrada empoeirada. . .
Estenderam a lona do acampamento,
surgindo ampla tenda e barracas familiares.

Veio a noite fria, trazendo os astros e seus guias,
levando-os a reconhecer em si o seu tipo astral,
em reflexão pessoal, lançando-se à nova busca
da árvore de uma vida repleta de amor.
A fogueira foi acesa, tornando o breu da noite
em ambiente claro e hospitaleiro ao rigor frio
da primeira chuva fina do inverno.

Crianças foram atraídas ao redor,
indo-se juntar mulheres e varões,
invocando na transmutação de vidas passadas,
a cura dos males físicos e espirituais.

Surgiu um tênue vapor atmosférico
ao silêncio noturno do relento,
precipitando-se o sereno da madrugada.

As primeiras gotas de orvalho jaziam sob as folhas
e as pétalas que se cobriam da cor de prata,
tornando-se argênteas, parecendo-se impregnadas pelo fluido de estrelas que desciam e vagavam.

O violino, a viola e o violão;
o pandeiro e o acordeão atravessavam a noite,
rasgando e rompendo a densa névoa a cair,
tornando branco o verde da vegetação.

O som do gemido surdo das carroças silenciou,
em face de o gemido agudo do violino,
soando as notas tristes e distantes do Mar negro.

Silêncio!
Todos sob a magia hindi e czardas,
de cujo legado húngaro trouxe a música
e a dança que evolui, sob a introdução apática,
movimentos de caráter melancólico e patético,
acelerando o ritmo a um estado selvagem.

Sulamita, morena linda, faceira e indiferente
aos olhares, levava o cântaro de vinho e água
que distribuía no ágape, ora servido.

Em notas plangentes, o violino voltou a gemer,
como se tomado de um sentimento profundo
que dominou a todos, entoando um canto triste
que foi buscar na terra distante da Andaluzia.

A melancolia do canto jondo já fazia chorar,
quando Wladimir formou par com a Sulamita,
aproximando-se das labaredas, a saudar o fogo
que se desprendia da fogueira que ardia,
aquecendo o vasto terreiro, com energia alegre
que já se ouvia do canto flamenco.

A energia alegre da dança, dissipou a tristeza;
outros pares se fizeram em movimentos típicos
dos braços e de tronco, permitindo a beleza,
e a sensualidade morena da cigana aflorar,
em sua cor trigueira do mouro.

Um comentário:

  1. Quanta liberdade encontramos dentro do mundo dos ciganos!
    Liberdade de expressão no idioma, na dança, nas vestes,enfim, ser cigano é ser LIVRE.
    Bom demais. Beijo.

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